#18 – quando gostas de teoria, num mundo que só gosta de prática

dia 18
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Este é o meu drama mais recente desde que comecei a pensar em seguir a área de investigação. Sempre gostei de teoria, mas sempre pensei que iria aplicá-la à prática. Como qualquer pessoa que gosta de teoria, consigo fazer mil aplicações e ligações à prática, mais não consigo ver a prática sem teoria e para mim prática sem teoria é algo que não sentido. Se no início ainda me esforçava por demonstrar a aplicação prática e a utilidade, passados alguns meses, vencida pelo cansaço, limito-me a deixar os outros ficarem com a ideia de que o que eu faço é irrelevante. Gasto menos as minhas cordas vocais e no fim as pessoas ficam com a mesma ideia.

Sempre fui uma criança e aluna dos porquês. Não me chega saber que a terra é redonda, eu quero saber o porquê. Não me chega saber que nós temos uma tendência para estereotipar, eu quero saber porquê e como. Não me chega saber que me tenho que atirar para fazer um rolo, eu quero perceber minimamente a física do movimento, pior enquanto não perceber qual é a lógica não o vou conseguir fazer. O mesmo com o yoga, com a cozinha, etc, etc.

Num mundo, onde as pessoas só querem que as coisas funcionem e querem lá saber do mecanismo que as faz funcionar. Num mundo em que um tema só deve ser aprendido se tiver uma aplicação prática e onde todos querem exercer profissões de alta qualificação onde só tenham que fazer coisas giras. Pensar está desvalorizado e pensar na teoria por trás do que quer que seja é considerado irrelevante. Com os anos surgiram novas dúvidas, algumas que não tinham respostas já escritas e talvez daí tenho surgido a paixão pela investigação.

Não penso que isso seja mau. Acho que há espaço para todos e na realidade existem poucos lugares para ser teórico. No entanto, não concordo que se considere a teoria irrelevante, que se veja a faculdade como um conjunto de anos onde se aprendem coisas que não servem para nada (porque não têm uma aplicação directa) ou que se ache que as pessoas que fazem investigação são uma espécie de empecilhos da sociedade (tirando os que descobrem a cura para o cancro, claro).

Acredito profundamente que a teoria é mesmo importante. É a base de tudo. Compreendo, que hoje em dia é impossível conhecermos a base de tudo. Se cada pessoa tivesse que repetir o processo de milhares de anos de estudos para exercer uma profissão, ninguém chegava a sair da faculdade. Mas não é disso que falo. Quando é preciso mudar processos, inovar, criar novas coisas, é preciso dar um passo atrás. É preciso conhecer o que está por trás dos processos que fazemos todos os dias, é preciso perceber a teoria.

Mas investigar, teoria, é complexo. Nem sempre se encontram respostas que têm uma imediata tradução para a prática. Às vezes são coisas que estão tão longe do dia-a-dia que se tornam difíceis de explicar. O que não significa que os temas não sejam importantes ou relevantes, até mesmo para assuntos do dia-a-dia. Porque muitas vezes é difícil começar a estudar “porque é que o Trump ganhou?” por o Trump ter ganho. Em ciência, opta-se por isolar variáveis, porque só assim conseguimos perceber o efeito de cada uma. Mesmo que às vezes seja difícil de tecer uma ligação directa com o fenómeno que “nos interessa”.

Para mim, que estou a começar às vezes é difícil explicar às pessoas o que é que aquele estudo acrescenta à vida delas (que no fundo é o que elas querem saber). Por um lado, não é como se eu fosse por aí a pedir a todas as pessoas que justifiquem o seu salário e a utilidade de cada tarefa que fazem para o mundo. Por outro, nem sempre nós (investigadores, ou pretendentes a) queremos estudar coisas que mudem o mundo. Às vezes só queremos compreender melhor um fenómeno, satisfazer a nossa curiosidade e saber que depois daquele estudo percebemos um bocadinho melhor este mundo em que vivemos. Se essa informação for útil para a prática, excelente; se não for, paciência, não quero ser uma mera informadora dos que “fazem” coisas, quero descobrir coisas e dar mais um passo para perceber melhor o lugar em que vivo.

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