#20 – parem de queimar pontes, por favor

dia 20

No Domingo foi a minha bênção de finalistas, que de bênção tem francamente pouco. E enquanto esperava que começasse, debaixo de um sol ardente, fui refletindo sobre algumas coisas. Assim que entrámos no recinto (bastante atrasados) fomos para o nosso lugar e quando passou aquela confusão inicial de tomarmos os nossos lugares, paro e escuto a música. Não queria acreditar. Os cânticos que decidiram escolher para uma cerimónia dirigida a um público dos 20 aos 30 anos, foram as músicas que as velhinhas que estão a 30 anos no coro da igreja cantam, normalmente com voz esganiçada (que quase ninguém tem voz para aquilo). Não queria acreditar.

Enquanto isso, um rapaz insistia em gritar, urrar e gozar com a música. Relativamente à música tive que lhe dar alguma razão, eu própria não queria acreditar. Sobre o resto vou deixar para outro post, para não nos perdermos no assunto.

Mas porque é que eu não queria acreditar? De tanto cântico de grupos de jovens, paróquias, escuteiros. De tantas músicas leves, mas com significado que existem, com melodias interessantes e que normalmente são bem recebidas pelos jovens. Vão escolher músicas pesadíssimas, que nada vão dizer a não crentes, cantadas em tons agudos (super apropriadas para uma multidão poder acompanhar), com partes em latim (bora lá mostrar que a Igreja cheira mesmo a bafio).

Não me interpretem mal, para mim tanto me faz. Não são as músicas que fazem a minha fé. Prefiro outro estilo, mas não deixam de ser uma oportunidade de rezar e não tornam o momento menos significativo.

Mas, vamos lá pensar, trata-se de uma questão de construir pontes. Temos ali uma multidão, centenas de jovens e as suas famílias. Milhares de pessoas (acho que não estou a exagerar, mas se estiver digam-me). Muitas delas não são católicas, ou são os chamados “católicos não praticantes” (whatever that means), muitos que nem acreditam em Deus, quase todos têm uma visão errada da Igreja. E o que é que nós vamos fazer? Uma cerimónia que active todos os estereótipos errados possíveis sobre a religião, a Igreja, a fé, etc.

Está ali uma oportunidade de construir pontes. De chegar a pessoas que nunca ouviram falar de Deus, uma oportunidade de tocar corações e o que é que fazem? Queimam a ponte com todo o gasóleo e todos os fósforos que encontrarem. Mas porquê, minha gente? Não fazia muito mais sentido criar pontes, criar laços, deixar uma semente.

Mas se a coisa se ficasse pela queima das fitas, estávamos nós bem. São tantas as vezes em que me deparo com situações em que a vez de se abrir uma janela se fecha uma porta na cara da pessoa. Já experimentaram ir a uma igreja onde não conheçam ninguém (preparem-se para uma aventura e um cem número de olhares de lado)?

As redes sociais, que podiam ser usadas para tanta coisa, as aplicações. Não, essas coisas do demónio têm que ficar lá longe. Na realidade, todos sabemos que muitas vezes é difícil para quem está à muito tempo no meio (e normalmente tem uma certa idade) adaptar-se à mudança rápida dos dias de hoje. Em geral, a presença nesses meios veio tarde e de uma forma, no mínimo “esquisita”. Claro que existem excepções.

Incialmente tinha escrito sobre casais divorciados. Lamento pelas pessoas que dizem que isso não é realidade, mas conheço muitos casos (incluindo o da minha mãe e de uma amiga que foi mãe solteira a quem foi recusado o baptismo do filho). Mas para tocar em coisas que são muito mais universais vamos pensar na relação que a igreja estabelece com os jovens. Existem padres e outras pessoas incríveis dentro da Igreja que se conseguem aproximar, mas não devia isto ser uma atitude universal? Lembro-me de uma amiga que no 5º ano perguntou “Se Deus existia mesmo?”, uma dúvida normal para uma criança de 10 anos, um adulto, é uma interrogação que surge, em vez de procurar iluminá-la um pouco a catequista mandou-a estar calada. Ponte queimada, percebem?

Há tantas pontes que se podiam aproveitar. Tantos momentos em que podíamos criar diálogo e pontos de comunicação. As redes sociais, bem usadas, podiam ser uma óptima oportunidade de o fazer. Em vez disso, desfazem-se as poucas que ainda existem e depois perguntamo-nos porque é que cada vez há menos crentes em Portugal.

também podes gostar de

2 comentários

  1. Mafalda tocaste em alguns pontos em que não estou completamente de acordo contigo. Nunca chamei “velha” a ninguém…. Sempre respeitei as pessoas mais velhas desde que me respeitassem a mim…. Depois posso dizer-te que já encontrei muita gente “velha” com vinte anos….. a velhice está na cabeça e não na idade…..
    Depois posso concordar quando dizes que há exceções…. A minha mãe é uma pessoa profundamente católica e quando decidi divorciar-me tive algum receio que ela não aceitasse bem… Sabes o que me respondeu quando lhe comuniquei a minha decisão? Que já o devia ter feito há muitos anos….. É uma pessoa com mais de 80 anos mas com uma mente muito mais jovem….

    1. Olá Professora,
      Compreendo o seu ponto. O objectivo não é de todo desrespeitar as pessoas mais velhas e acabei por tirar essa palavra do texto, de modo a não ferir ninguém. A ideia é as músicas de velhinhas, que são cantadas por pessoas mais novas e mais velhas, mas na minha experiência (curta) são frequentemente cantadas por pessoas mais velhas. Quanto ao divórcio, também referi que já começa a ser algo mais aceite e ainda bem que o é e excepções existiram sempre. Mas conheço muitos casos em que não é assim e normalmente isso acaba por acontecer com as pessoas que precisavam mesmo de apoio naquele momento.
      Lamento se de alguma forma a ofendi, beijinhos. Mafalda

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *