#4 O dia em que não pude entrar no avião

overbooking

Não, não é uma coisa que se faz agora. O overbooking já existe há muito tempo. É raro acontecer, mas quem viaja com frequência é provável que já tenha uma história destas. Hoje vou partilhar convosco a minha.

O overbooking é uma técnica que as transportadoras aéreas usam que consiste em vender mais bilhetes do que o número de lugares num voo. Se isto acontecer, não se preocupem, não perdem o vosso dinheiro, mas se precisarem mesmo de viajar naquele dia pode ser muito chato. Até porque, pelo que li, nos Estados Unidos, é tão difícil conseguir um novo voo que as pessoas podem ter que esperar vários dias para viajar.

Ultimamente tem estado em grande destaque na comunicação social o caso de um senhor que foi expulso do avião por dois seguranças. Durante as imagens o senhor grita e é arrastado pelo chão, num outro vídeo aparece a correr pelo corredor a dizer “I need to go home” e no último aparece com a cara ensanguentada e claramente desorientado. A alegada razão pela qual ele foi expulso foi o facto de o voo estar em overbooking. Bem, na realidade a justificação que a companhia deu foi que era necessário transportar mais 4 elementos da united airlines e como tal 4 passageiros tinham que abandonar o voo.

Na minha opinião é absolutamente inaceitável que uma companhia retire passageiros do voo para os seus funcionários voarem, especialmente da forma como foi feito. Normalmente, estas situações são comunicadas no momento do check-in e a pessoa recebe uma compensação para não viajar (que pode ir até aos 600 euros nas viagens de longo curso), um voo e tem direito a alimentação e estadia, até apanhar o próximo avião. Pior ainda, a reacção da companhia aérea que não só mal se desculpou, como ainda o seu CEO veio dizer que considerava a atitude do senhor imatura. Isto duas semanas depois, de não ter permitido que duas raparigas com leggings embarcassem.

Apesar da compensação, claro que ninguém gosta de comprar o bilhete, chegar ao dia para embarcar e não lho ser permitido. Já tive nesse lugar e é absolutamente horrível. No meu caso, tinha um voo para a Tanzânia de Frankfurt. Passamos o dia na cidade e à noite fomos para o aeroporto. Fizemos check-in (o que nem sequer devia ter acontecido), mas os nossos boarding passes não tinham lugar. Estranhámos mas prosseguimos. Estivemos na área de embarque umas 2 horas, o embarque foi muito demorado e cada vez que eu ia saber informações sobre o nosso bilhete diziam-me para esperar. O voo era às 23h, já era quase meia-noite quando informaram um grupo de quase 15 passageiros que não íamos viajar. Tinha 18 anos, estava prestes a fazer a viagem dos meus sonhos (seriam apenas 10 dias) e não me estavam a deixar embarcar. Era meia-noite, estava cansada e passei-me. Falei com a senhora de forma o mais assertiva que consegui, informei-lhe que estávamos a participar num programa da União Europeia e que precisávamos de embarcar. Ela não se mexeu. Eu passei-me.

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Hoje, se calhar, não me teria irritado tanto (deu direito a choro e tudo), mas a verdade é que ela prontamente tratou de nos arranjar um novo voo para o dia seguinte na Qatar airways (em vez da Ethiopian airlines), colocou-nos no Sheraton do aeroporto, deu-nos dinheiro para jantar (sendo que aquela  hora a única opção que tivemos foi pedir room service) e deu-nos uma indemnização. No dia seguinte, voltamos ao aeroporto para fazermos algumas chamadas (tínhamos direito a duas) e à noite seguimos tranquilamente no nosso voo.

Foi uma experiência má em que no fim correu tudo bem, mas teria sido muito mais fácil se nos tivessem informado no check-in às 19h da tarde. Podíamos ter jantado e descansado. Nessa noite, dormimos umas 5 horas e ainda tínhamos um voo de várias horas pela frente. Tivemos menos um dia na Tanzânia, mas na altura o que espantou foi o custo que nós gerámos. Como é que pode compensar as companhias aéreas fazer overbooking? Bem, compensa só os passageiros com tarifas mais caras é que se podem dar ao luxo de perder aviões. E não lhes compensa levar um avião com lugares vazios. Da pesquisa que fiz chega a haver voos com 50% dos lugares em overbooking.

Para o caso de algum dia se verem nesta situação, leiam este artigo da DECO, que explica quais os vossos direitos.

Este artigo faz parte de uma série de 25 posts que estou a escrever por ocasião do meu 25º aniversário. Se quiseres ler os outros clica aqui.

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5 comentários

  1. Eu nunca passei pelo mesmo diretamente mas já vi pessoas do meu grupo de viagem ficarem em terra. Eu não fiquei porque fiz o meu check-in cedo. Realmente essa viagem era de Lisboa para Nova Iorque.
    Também em questões de trabalho já vi ficarem pelo menos 20 pessoas em terra. E os meus clientes não ficaram em terra porque eu soube mais cedo que nesse dia haveria overbooking e (apesar de alguns reclamarem e quererem saber antecipadamente o porquê) os levei mais cedo para o aeroporto.Nem imaginas o que ouvi e só no autocarro do transfer os informei o motivo pelo qual os levava uma hora antes. Se tivesse informado o hotel (uma vez que foram eles que colocaram os avisos nos quartos dos clientes) qual o motivo da minha atitude as outras agencias de viagem teriam feito o mesmo que eu fiz…… Truques……
    Portanto o meu truque para não ficar em terra é fazer o check-in cedo. Prefiro esperar no aeroporto do que adiar a minha viagem. Sei que pagam tudo mas não gosto…….

    1. Sim, pelo que percebo é uma boa estratégia. No meu caso, também tenho a ideia que fomos dos últimos a fazer check-in. Porque quem chega mais cedo fica logo com um lugar e salvo excepções (como este caso da united airlines), depois de estarem no avião, não é pedido às pessoas que saiam.

  2. Nem de propósito: uma amiga minha vai agora com o namorado a Bali, sem pagar voos. Ou melhor, pagaram-no de outra forma. Estava ela numa viagem de trabalho na China (imagine-se) quando, na hora do embarque, lhe barraram a entrada. Estamos a falar de uma Emirates, que fez overbooking. Falamos também de uma rapariga que nunca tinha viajado, nem para tão longe nem sozinha, e que agora se via completamente perdida (os colegas de trabalho embarcaram) sem saber o que fazer. Resumindo e baralhando: ela só conseguiu voar mais tarde (na mesma noite, mas muito mais tarde) na British, perdeu a regalia da executiva (voou da China em turística) mas, ao menos, a companhia ofereceu-lhe dois voos para qualquer destino das rotas. Se não tivesse ouvido a história dela e agora lido a tua…custava-me mesmo a acreditar que o overbooking (ainda) era uma realidade…

    1. É mesmo uma realidade. No caso dela o facto de ter perdido a executiva num voo tão longo ainda é pior. Mas ao menos vai poder agora fazer uma viagem de sonho. Bem, acontece mesmo, o importante é saber os nossos direitos e fazê-los valer 😉

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