Ansiedade pré-estágio

Estou a apenas algumas horas de começar o meu estágio. Nestes últimos dias de férias tenho sentido um misto de emoções: tristeza por ver as férias a acabar, alguma “excitação” por ir começar uma nova fase da minha vida e ao mesmo tempo algum receio de algo completamente novo.

Depois de mais de duas décadas a estudar e com apenas algumas experiências pontuais de trabalho e/ou voluntariado, a verdade é que nunca tive um trabalho. Pelo menos nunca tive um trabalho das 9h às 18h com uma hora de almoço e colegas e um posto de trabalho. Como eu, acho que a maior parte dos jovens da nossa geração nunca trabalharam antes de chegar ao estágio (seja ele curricular, profissional, etc).

É um marco nas nossas vidas. A seguir a um estágio, vem geralmente um trabalho e depois mais outro e mais outro (de preferência estabilizamos nalgum deles) até chegarmos à reforma. Já não há mais voltar atrás. O curso acaba. A vida profissional começa e inevitavelmente crescemos e tornamo-nos responsáveis por nós próprios.

Já não podemos faltar porque não nos apetece aturar uma reunião chata ou sair mais cedo porque é Maio e está um lindo dia de sol. As férias serão reduzidas a um terço e os dias deixarão de sobra apenas umas poucas horas sem luz.

Há também uma “excitação” no ar, desde pequeninos que queremos ser grandes e quando fossemos grandes queríamos ser professores, bombeiros, astronautas, médicos, etc. E finalmente vamos poder ser aquilo que sonhamos (alguns de nós pelo menos, poderão sê-lo).  Mas quando chega a altura de começar a nossa vida profissional há uma ânsia que se instala. Depois de anos passados entre os livros e as salas de aula, os auditórios e a biblioteca chega a altura de pormos em prática tudo o que aprendemos. Depois de passarmos mais de duas décadas da nossa vida a estudar, vamos finalmente trabalhar. E agora?

Apesar de esta ser uma altura maravilhosa da nossa vida em que iremos finalmente colher os frutos de tantos anos a trabalhar, todas estas mudanças podem também ser assustadoras. Porquê?

1.  Sentirmos que não estamos preparadosPor muito que tenhamos confiança nos nossos conhecimentos e que até tenhamos sido bons alunos na faculdade, acho que quase todas as pessoas com quem tenho falado sentem que o curso não os preparou suficientemente para a vida profissional e isso pode causar ansiedade relativamente ao primeiro estágio.

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Por outro lado, acho que a fraca ligação entre as universidades e o meio profissional faz com que para muitos a entrada no mundo profissional seja um choque. Numa geração cheia de viajantes e startups, pessoas que trabalham em casa e ouvirmos falar de todo o tipo de lugares de trabalho incríveis, pode ser difícil confratarmo-nos com uma pequena sala cheia de computadores e secretárias onde vamos passar pelo menos oito horas do nosso dia.  (este não é claramente um ponto que me aflija já que vou trabalhar num dos lugares mais fixes que já conheci para trabalhar, mas fica a referência, por já me terem vindo as lágrimas aos olhos com o pensamento de passar o resto da minha vida enfiada num buraco).

2. Vamos finalmente fazer aquilo com que sempre sonhámos

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Foto de Teddy Kelley (@teddykelley)

Depois de anos a sonharmos com uma profissão (pelo menos pelos 3 a 5 anos do nosso curso), vamos finalmente poder realizá-la. Será que vai ser tudo aquilo com que sonhámos ou uma perfeita desilusão? As expetativas elevadas podem ser inimigas de uma boa primeira experiência profissional. Ainda assim, ao fim de tantos anos de “espera” é inevitável termos expetativas relativamente ao trabalho, às pessoas com que vamos trabalhar, ao espaço e é provável que sobrestimemos a percentagem de tempo despendido com as tarefas de que gostamos, havendo uma subestimação das tarefas menos apelativas.

3. Não vamos fazer nada daquilo com que sonhámossad-girl-pics-12É triste, mas nem todos nós iremos ter um início de carreira de sonho. Por pouco, estive para me incluir neste grupo o que me causou bastante ansiedade no último ano, mas felizmente tomei decisões acertadas a tempo. Porém, é preciso considerar que muita gente pode começar por estagiar num local com o qual não sonhou, seja porque o curso já foi fruto de uma escolha racional e não o perseguir de um sonho, seja porque não fomos seleccionados para o estágio que gostaríamos ou porque numa lista de muitos alunos ficámos com os “restos”. Ainda assim, acho mesmo que um estágio/primeiro emprego é o que fizermos dele e um sítio que à primeira vista nos parece pouco interessante pode dar-nos uma grande experiência ou abrir-nos muitas portas.

4. Estamos a tornar-nos “adultos”

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Ilustração de Cristina Vanko (100daysofadulting)

Pois é, depois do estágio vem a vida adulta e essa pode ser uma das coisas mais fantásticas e ansiogénicas nesta fase da vida. Por estes dias dou por mim a pensar como é que cheguei aqui. Ainda ontem estava no primeiro ano da faculdade, agora estou a acabar o curso e prestes a entrar na vida profissional. Daqui para a frente as responsabilidades serão sempre a somar e parece que o tempo passa cada vez mais rápido. Por outro lado, há o receio daquilo que nos espera. Até agora era tudo muito previsível: um ano de estudo a seguir ao outro, com pequenas variâncias pelo meio. Mas num tempo em que as carreiras para a vida já não existe, o nosso futuro é uma caixinha de surpresas, um admirável mundo novo por descobrir.

escrito: 26 de Agosto de 2016

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