Como comecei a viver sozinha – parte 1

Próximo do meu 18º aniversário vi-me numa das mais importantes encruzilhadas da minha vida. Os meus pais tinham morrido (a minha mãe há menos de um ano) e sentia-me presa numa situação familiar demasiado complicada para mim naquele momento. Por isso, tomei uma das decisões mais difíceis, mais importantes e da qual não me arrependo: decidi que iria viver sozinha. Ainda que sem muito apoio dos adultos à minha volta que “sabiam” que aquela era uma má decisão, típica de uma adolescente perturbada, fiz-me à vida.

No dia em que fiz 18 anos

De facto, naquela altura, ajudou-me a inconsciência própria da adolescência que não permite medir as consequências, ainda assim por muito difícil que tenha sido (e continue a ser) o caminho, todos os dias tenho mais certeza que tomei a decisão certa.

O primeiro desafio foi começar a viver sozinha em plena fase dos exames nacionais do 12º ano (que foram bastante desastrosos, mas pretendo falar disso noutro post). Outro foi ter amigos, da minha idade, que achavam que uma casa sem pais, era uma casa sem limites. E com 18 anos, mal tinha idade para impor limites a mim própria, quanto mais aos outros. Por isso, acabei por evitar a situação.

 Uma das maiores dificuldades é, sem pais e sozinha em casa, ter que ser eu a impor limites a mim própria. É ao mesmo tempo uma vantagem, mas acaba por se tornar algo de muito pesado que não me permitiu viver muito a loucura da juventude, nem arriscar ir muito para além de onde sabia que conseguia voltar a mim própria.

Com o peso de uma cidade cheia de más recordações, rumei ao norte, mais precisamente ao Porto. Onde vivi durante um ano e meio em três casas diferentes, sempre com outros colegas de casa. No Porto, sentia-me normal, era mais uma a viver fora de casa dos pais no meio de muitos outros. Tinha amigos que tinham rotinas semelhantes às minhas: ir às aulas, estudar, fazer o jantar (ou ir comer fora), limpar a casa e ir as compras. Tinhamos sempre amigos que viviam perto, havia sempre outras pessoas sem nada para fazer que queriam tomar um café ou partilhar uma tarde de estudo. Tinhamos problemas e dietas semelhantes. Enfim, sentia-me acompanhada.

Porto
Porto e ponte D. Luís, foto tirada por mim

Entretanto decidi mudar de curso e aproveitei a oportunidade para voltar a Lisboa, sob pena de continuar o resto da minha vida a fugir aos meus problemas. Foi aí que a minha solidão se tornou mais evidente. Foi difícil. A maior parte dos meus amigos viviam com os pais ou viviam longe. A maior parte das vezes encontrava-me sozinha em casa, ficava dias sem ver ninguém, foi um bocado complicado, mas na altura sabia que tinha que ser assim. Acabei por adoptar uma nova estratégia de fuga, desta vez através de viagens. Viajei muito, muito mesmo (só comecei a viajar aos 16 anos e já tive em 22 países, mais ou menos, que eu baralho-me sempre a contá-los).

Eu no comboio
Viagem de comboio de regresso a Lisboa
O cúmulo desta fase foi quando eu fui para a Geórgia e Arménia, com menos de uma semana de preparação. Tinha tudo para correr mal, mas acabou por ser uma das viagens da minha vida.
O cúmulo desta fase foi quando eu fui para a Geórgia e Arménia, com menos de uma semana de preparação. Tinha tudo para correr mal, mas acabou por ser uma das viagens da minha vida.

Depois de uns primeiros meses mais complicados, alguns eventos determinaram a mudança dos ventos… (continua no próximo post).

40 Replies to “Como comecei a viver sozinha – parte 1”

  1. Gostei muito Mafalda. Consegues mesmo transmitir as emoções pelas quais passaste com as tuas palavras. Parabéns! Vais longe, tens todo meu apoio. Beijinhos, Mariana Gemelgo

    1. Muito obrigada Mariana! É sempre bom ouvir estas palavras de outra blogger.
      Beijinhos
      Mafalda

  2. Mafalda, que saudades! Estou a adorar ler o que escreves. É uma forma de libertação… já chorei, já ri! Vou continuar a acompanhar.

    1. É mesmo! Obrigada professora!
      Beijinhos, Mafalda

  3. Parabéns pelo post e força !

    1. Muito obrigada 😉 espero que continues a acompanhar
      Beijinhos, Mafalda

  4. Bem, acabei de chegar aqui mas arrisco dizer que tens uma vida inspiradora! Vou estar cá para ler mais 🙂

    1. Espero poder inspirar outras pessoas com aquilo que já passei. Penso que é uma forma de transformar algo mau, em bom. Obrigada pelo apoio.
      Beijinhos, Mafalda

  5. Acho que estou a reconhecer aquele casaco vermelho na última foto Mafalda! 🙂

    1. Acho que deves reconhecer! 😛 Grande aventura aquela!
      Beijinhos, Mafalda

  6. […] pequeno resumo do post anterior, uma vez que este é a sua continuação: aos 18 anos comecei a viver sozinha. Fui morar para o […]

  7. […] algo que adoro e que já ocupou uma parte tão grande da minha vida como as viagens! Como falei num post anterior grande parte da minha fuga à realidade de ter 18 anos e viver sem pais passou por viajar. Há quem […]

  8. […]  1. Como comecei a viver sozinha parte 1 (podes reler aqui) […]

  9. Que legaaaal !!!! Mas acho que não teria essa coragem de ir morar sozinha kkkk cuidar da casa, da roupa, da comida…acho que iria ficar muita coisa pra fazer.
    http://www.vitoriafaustino.com.br

    1. Acompanha o meu blog para ver se perde esse medo 😉 😛

  10. Nossa que interessante. Adorei, você conseguiu transmitir suas emoções e vivencias de uma maneira que chama a atenção das pessoas.

  11. Poxa, que barra o que aconteceu 🙁 Mas fico super feliz em ver que você fez o que quis, mesmo os outros dizendo que não ia dar certo, deu! 🙂
    E, caraca, viajou bastante, hein? Hahaha!
    Adorei o post!

    1. Muito obrigada! Sim viajei muito! Tudo é possível quando queremos muito uma coisa e sabemos no coração que é a coisa certa

  12. Nossa, Mafalda! Que história hhaha. Mas fiquei muito triste pelo que aconteceu, mas muito feliz por você ter conseguido dar um rumo à vida depois dessa situação tão ruim. Achei legal ter falado das dificuldades de morar só, de impor limites, isso é muito importante.

    1. Olá querida madrinha blogueira 😉
      Obrigada pelo teu comentário. Sim acho que é importante compreender que é uma coisa que tem vantagens, mas que não é nada fácil.
      Obrigada por tudo, Mafalda

  13. Tô louca pra viver sozinha, mas bate um medo

    1. Então acompanha o blog. Vou começar a por mais dicas e artigos sobre viver sozinha (perdi-me um pouco nestes primeiros tempos) e pode ser que o medo passe 😉 E acredita que não custa mesmo nada 😉

  14. Você foi muito corajosa! Lindo post, fica com Deus 😘

    1. Muito obrigada Yasmin, um beijinho

  15. Que inspiração de mulher, que garra em meio a tantas turbulências conseguiu de uma forma brilhante se tornar independente! Que você continue inspirando os outros com suas histórias pois conseguiu me inspirar muito e vou ficar aqui sempre acompanhando <3 sucesso viu!

  16. Uauuu… fiquei tocada com o seu relato. Mesmo que seja comum em muitas partes do mundo ir para a Universidade nessa idade, a presença e suporte dos pais dão uma segurança. Concordo que sem meus pais, eu teria que amadurecer bem mais rápido.
    Minha mãe viaja para Portugal no próximo ano…espero que ela goste.
    Beijos!
    Gatita&Cia.

    1. É exatamente isso! É difícil perder essa segurança! Muito mesmo! Tenho a certeza que a tua mãe vai adorar! Se precisar de alguma coisa diz 😉

  17. Mafalda que relato forte! Primeiramente eu lamento pela falta de vossos pais eteu texto me trouxe força! Mudanças vem para testar nossos limites e nos provar que somos melhores do que achamos!
    Lindo texto, lindo blog!
    Um beijo

    1. Muito obrigada Mariana! É mesmo! Fico muito feliz de poder levar força a outras pessoas!

  18. Gostei muito do post!! Sua história e bem interessante, sinto muito pelos seus pais 🙁. Adoraria viajar e conhecer outros países. Beijos

    1. Muito obrigada! Beijinhos, Mafalda

  19. Escrrves muito bem. Eu durante um ano vive sozinha e sei quanto é complicada organizar a casa e impor regras. Beijo bom.

    1. Muito obrigada 😉 é verdade, foi uma das coisas que senti.
      Beijinhos, Mafalda

  20. Parabéns, você realmente tem muita coragem e tenho muita vontade de morar sozinha e você me ajudou bastante.
    Art of life and books

    1. Muito obrigada Danielly. É bom poder inspirar alguém. Vale a pena assim.
      Beijinhos, Mafalda

  21. Gente, adorei esse post e estou mega curiosa pela segunda parte rs
    Eu não tenho coragem de morar sozinha, o custo de vida aqui em São Paulo é muito alto e confesso que fico com medo de não dar conta rsrs

    1. Olá Erica. Obrigada
      Podes sempre tentar procurar amigos que queiram partilhar casa. É um bom começo e conheço algumas pessoas que têm tendado ir por aí aqui em Lisboa.
      A segunda parte já saiu. Deixo-te o link; http://noparentsathome.com/como-comecei-a-viver-sozinha-parte-2-ou-como-acabei-a-viver-com-a-minha-gata/

  22. Gostei bastante do texto! Sua historia é muito interessante.

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