Como ganhar experiência antes de ter o primeiro trabalho

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Muita gente pensa que tem que esperar pelo fim do curso para começar a ganhar experiência e para começar a trabalhar. O problema é que para encontrar estágios, e mesmo um trabalho, temos muitas vezes que já ter algum tipo de experiência, mais que não seja para nos destacarmos. Obviamente que, em algumas áreas, não é possível começar a exercer antes de acabar o curso (é o que acontece em psicologia, a minha área). Então o que é que podemos fazer? Tudo e mais alguma coisa. A única coisa proibida é fazer exclusivamente o curso e passar três/cinco anos sem ter uma única experiência fora da sala de aulas.

Tenho 24 anos e nunca tive um trabalho, ou pelo menos, um trabalho pago. Sempre senti a responsabilidade de receber uma pensão para poder estudar e sempre tive a completa noção que tinha que aproveitar ao máximo este tempo para me desenvolver o mais possível e para ser útil à sociedade.

Quem me conhece sabe que ando sempre a correr de um lado para o outro. Isto começou provavelmente no secundário e tornou-se em algo que faz parte de mim desde que entrei para a faculdade. Lembro-me de estar na primária e de a minha mãe dizer que quando crescesse ia ter que ter dois trabalhos para me manter ocupada. Toda esta necessidade de me manter ocupada fez com que, ainda que não pudesse trabalhar, chegasse ao último ano da faculdade com muita(s) experiência(s) acumulada.

E como é que o fiz? Ao longo dos anos, meti-me num pouco de tudo: voluntariado local (i.e. na cidade onde vivia), voluntariado internacional, viajar, intercâmbios, cursos internacionais, bodyboard, aulas de alemão, aulas de inglês, yoga, Marés Vivas, associação de estudantes, POWER e mais recentemente estágio e blog, são tudo formas que encontrei para me desafiar e me desenvolver. Nunca tive um trabalho pago (nem posso ter), mas no meu CV não deixo a secção da experiência em branco.  Aproveitei todas as oportunidades que encontrei para ganhar experiência e posso dizer que, mesmo as que não correram tão bem, acrescentaram algo.

Para explicar melhor, o que fui fazendo, acho que é mais fácil dividir estas experiências que em 3 fases:

1. As primeiras experiências,  logo a seguir ao secundário 

Quando sai do secundário queria conhecer o mundo e sentir-me útil por isso aproveitei o programa juventude em acção (actualmente erasmus mais). Através deste programa participei em intercâmbios e cursos internacionais onde mais do que aprender isto ou aquilo abri os meus horizontes,passei a ver as pessoas e o mundo de outra forma e foi algo que definitivamente me mudou. Ainda nesta fase tive uma experiência incrível de voluntariado no GAS Porto, um grupo de voluntariado que não só faz um trabalho sustentável e com sentido, no Porto e no mundo, como é um grupo que se preocupa com o desenvolvimento pessoal dos seus membros (mas preparem-se para não ter mais vida :P). Depois estive em Moçambique durante 3 meses a fazer voluntariado, antes de entrar para psicologia e se iniciar uma nova fase.

Durante esta fase, era uma jovem meia perdida, a tentar fazer tudo e mais alguma coisa. Penso que era tanta coisa ao mesmo que nem tinha tempo para absorver as aprendizagens. Entre os 18 e os 20 anos ganhei um andamento incrível sobretudo na organização de eventos (fiz parte da organização dum jantar de gala para 200 pessoas, um churrasco para 300, uma festa no mercado de Cascais com 400 pessoas, entre outros). Também foi muito intensa a experiência que tive em Moçambique, de manhã à noite fazia o que era preciso e encontrei-me algumas vezes responsável ou co-responsável por 65 rapazes adolescentes (olhando para trás não faço ideia como consegui fazer tudo aquilo). Nesta fase sonhava e sonhava e sonhava, tinha tantos projectos, mas como me metia em tanta coisa, acabava por nunca os concretizar. Outra parte interessante, é que embora seja uma pessoa que adore aprender, esta foi a única fase da minha vida em que verdadeiramente ODIAVA estudar.

2. Um passo “atrás”

Quando regressei a Lisboa tive que dar um passo atrás (como está explicado aqui).E isso também significou dar um passo atrás no envolvimento em tantos projectos. Quando saí do secundário, estava farta de estudar e nunca fazer nada de “prático”. Depois de 2 anos a por a mão na massa, senti que me faltava aprender muita coisa, que tinha tantas competências por ganhar. Foquei-me nos estudos, tive aulas de inglês e no ano seguinte de alemão. Comecei a aprender a fazer bodyboard (ainda o faço hoje em dia) e também fazia yoga.

Nesta fase, aprendi a estar bem comigo própria (mais aqui) e aprendi outras competências. Voltei a ser uma estudante. Voltei a ganhar o gosto por aprender e isso deixou-me muito satisfeita. Fez-me bem esta fase em que voltei a enriquecer os meus conhecimentos teóricos, tão importantes para “fazer coisas” com qualidade.

3.1. A fase em que me apercebi que não “fazia nada” há três anos e  voltei a meter o turbo

Bem, esta fase começou quando eu voltei de erasmus e acaba no final deste ano lectivo (ou pelo menos é esse o plano). Apercebi-me que todos os planos e projectos que tinha, nunca se tinham realizado e que não passavam disso mesmo: planos e projectos. Por outro lado, vi-me no fim da licenciatura com o Mestrado a acabar daqui a dois anos e a minha empregabilidade em mínimos históricos. Por isso decidi fazer-me à vida e procurar novos projectos, na realidade foram mais os projectos que me encontraram a mim. Menos de uma semana depois de eu voltar de erasmus, conheci a Madalena que na altura era Directora Geral da P.O.W.E.R. Consulting. A POWER é uma júnior empresa que faz basicamente consultoria de Recursos Humanos. Candidatei-me e comecei por trabalhar na página do Facebook, cerca de um mês depois de entrar fui ao Jenial o encontro de Júnior Empresas da JADE Portugal com a Carolina (que é minha amiga e entrou ao mesmo tempo que eu). Nessa altura, a situação da POWER não era a melhor. Estávamos indecisas entre ir para o ISCTE ou continuar no ISPA e a empresa do ISCTE é absolutamente incrível, faz inveja a muitas empresas (sem o júnior). No final do fim de semana, decidimos que íamos ficar no ISPA e íamos tentar ajudar a POWER a dar a volta, pessoalmente (e acho que a Carolina pensou o mesmo) achei o desafio mais interessante. No ISCTE, íamos ser “mais uma”, provavelmente nem íamos chegar a fazer parte da tal júnior empresa espectacular. Bem, ficámos, em Setembro passámos a fazer parte da direcção e demos o nosso melhor. Nem sempre correu como planeado, quase deixámos de ser amigas e houve mudanças, não tão grandes como tínhamos planeado, mas este ano lá estamos para continuar. Agora sou a Directora Geral da POWER e a Carolina é a Directora de Projectos. Acho que não cabe em nenhum CV a experiência que ganhei ao longo deste ano e meio.

Para além disto, mais ou menos na mesma altura que entrei na POWER, convidaram-me para fazer parte duma lista para a Associação de Estudantes, como nada mais, nada menos, do que: Vice-Presidente. Honestamente, se fosse hoje não sei se teria aceite. Fiz o que pude, mas acho que este projecto entra muito na linha “estava tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo que nem consegui absorver nada”. Ainda assim, o meu orgulho foram as pessoas que trouxe para este projecto: a Beatriz que preparou uma recepção para os erasmus incrível e o Pedro que mudou a maneira como a AE põe o voluntariado na sua agenda. De resto, limitei-me a assinar papéis e a lidar com uma equipa que nunca consegui realmente conhecer.

O primeiro ano do meu mestrado foi uma loucura: Directora de Recursos Externos na POWER, Vice-Presidente da Associação de Estudantes. Ganhei a experiência que não tive nos outros três anos. Aprendi tanto sobre pessoas e sobre gestão de recursos humanos. Nem consigo acreditar que só passou um ano.

Este último ano foi um altamente stressante. Sobretudo no primeiro semestre, tinha um peso horrível em cima dos ombros, um pânico enorme de não conseguir ter emprego quando acabasse o curso. Por isso, não aceitava fazer menos do que tudo e mais alguma coisa. Foi tão desgastante. Tinha que ter 20 a tudo. Tinha que fazer tudo na POWER e nada podia falhar, em nome da minha empregabilidade futura. Eventualmente acalmei-me, mas é um fantasma que de vez em quando volta.

3.2. Estágio, tese, POWER & blog

Este ano estou a estagia numa agência de Marketing a fazer uma mistura de recursos humanos, investigação e estratégia. Sou directora-geral da POWER: o ano começou muito bem, mas espero conseguir levar o barco a bom porto, sobretudo espero no fim do ano poder abandoná-lo e deixá-lo a navegar em velocidade de cruzeiro. Estou a fazer várias investigações com os meus Professores (esta é a minha paixão). Depois de deixar a AE, decidi investir num projecto meu que tinha há algum tempo guardado numa gaveta: o blog, este blog.

É um ano diferente. Cada uma, à sua maneira traz novas competências, permite-me continuar o meu desenvolvimento pessoal e sinto que as quatro se complementam. Por agora, dedico-me das 9h30 as 18h30 ao estágio (a minha primeira experiência profissional) e aproveito os fins de semanas e as noites para trabalhar nos outros projectos (POWER, investigação e blog).  A partir de Março o estágio acaba e penso que a carga já vai aliviar um pouco. Estou a trabalhar para conseguir atingir os objectivos que tenho a curto e longo prazo e isso faz com que não perca o ânimo. Daqui a um ano, espero poder dizer-vos que valeu a pena.

A mensagem principal é não esperem por acabar o curso para começar a ganhar experiência. Se não poderem/quiserem trabalhar (como eu), façam voluntariado, criem os vossos projectos, viajem, criem um blog, só não fiquem num sofá a apanhar pó. Posso garantir-vos que no momento de contratar alguém é isto que nos diferencia. Mas a diferença vai-se notar, sobretudo, quando começarem a trabalhar. Estar habituado a fazer mais do que a faculdade, as experiências que tivemos, as falhas que já tivemos, o “desenrasca”, vão fazer toda a diferença.

 

2 Replies to “Como ganhar experiência antes de ter o primeiro trabalho”

  1. Eu bem te vi a andares muitas vezes a 1000 à hora……

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