Diário de uma rapariga que vive sozinha

Tempo de leitura:4 minutos

Não, não é o meu. É o famosíssimo diário de Bridget Jones. Bridget, uma londrina que vive sozinha, relata-nos de forma engraçada o seu dia-a-dia entre a liberdade de viver sozinha agora e o pânico de viver sozinha para sempre. Muitas vezes referido ao longo do livro é o mito da mulher que morre sozinha em casa e é comida pelos gatos.

O livro já tem muitos anos, mas encontrei-o por um euro e decidi lê-lo no Verão. Foi uma leitura leve e agradável. É um livro que se lê rápido. Embora não seja igual ao filme, é bastante parecido. Mas achei sobretudo interessante, ler um diário ficcional de uma mulher que como eu, vive sozinha.

O dilema carreira vs. família

Porém, acho que nos separa uma geração. Depois de ter passado os últimos anos da adolescência e os primeiros da vida adulta a ver filmes e séries de mulher que diziam não querer casar e ter filhos e em que me passavam pelos olhos tantos exemplos de mulheres que por opção ou pressão se dedicaram à carreira e que, ignorando os relógios biológicos, deixaram a família para depois ou optaram por nem a colocar nos seus planos.

Penso que depois de tanto vermos isto, de sermos avisadas dos perigos de casar cedo e do vazio que fica quando tudo o que existe é a carreira, sinto que somos uma geração diferente. Uma geração que quer ser bem sucedida e trabalha, mas que não abdica de ter uma vida para além do trabalho. Quer seja com a família, com os amigos ou a dedicar-se a um hobbie.

Já vemos a família de uma outra forma, não necessariamente como uma escravatura da mulher, mas como algo que queremos construir com o parceiro certo ao nosso lado.  Com o tema do balanço trabalho-vida familiar cada vez mais na berra, a família é cada vez menos uma antítese de carreira. A família e os filhos já não impedem de viajar, nem de viver e por isso cada vez menos se trata de uma escolha e cada vez mais é passível de se enquadrar nos planos de todos.

A pressão para ter um corpo perfeito

Outro tema muito abordado no livro é a pressão que existe para ter um corpo perfeito: Bridget começa quase todas as entradas no diário com uma pesagem e contagem de calorias ingeridas, seguidas de elevadas doses de auto-infligimento a cada deslize cometido. Com as marcas a aumentarem os tamanhos das roupas e  a crítica global à magreza das modelos, a questão está na procura de um estilo de vida saudável e fit. Claro que muita gente, continua a correr a cada nova promessa de “super-alimento” que surge. Pessoalmente, procuro um estilo de vida, que me permita sentir saudável, com energia e em equilíbrio.

O príncipe “desencantado” vs. o sapo encantador

Foto promocional do filme "O Diário de Bridget Jones" (Foto: Universal/Miramax)
Foto promocional do filme “O Diário de Bridget Jones” (Foto: Universal/Miramax)

Claro que estou a falar de Daniel Cleaver e Mark Darcy. Daniel é o suposto príncipe encantado que ao fim de uns quantos beijos se torna num sapo e Darcy é o sapo, que não se transformando necessariamente num príncipe, se torna encantador. Gosto de acreditar que o dilema Daniel-Mark, se põe cada vez menos. Entre Daniel, o homem de sonho que torna a vida num pesadelo e Mark, o homem facilmente desprezado mas que esconde um tesouro, as mulheres estão cada vez menos para aturar o ego do primeiro e cada vez mais prontas para assentar com o segundo (sublinho o gosto de acreditar). E não se enganem, também existem aí muitas princesas “desencantadas” e sapinhas encantadoras.

A questão é sobretudo perceber que príncipes encantados não existem. Existem pessoas. Existem homens e mulheres normais. Que têm pontos fortes e que têm defeitos, todos temos. Trata-se de uma escolha. Não é um príncipe  ou um sapo que nos sai na rifa. É alguém com quem escolhemos estar e que escolhe estar connosco. Escolhemos aturar os defeitos dessa pessoa. Escolhemos viver com os pontos fortes dessa pessoa. Escolhemos resolver os problemas que aparecerem. E escolhemos estar juntos e fazemos essa escolha todos os dias.

O pânico de viver sozinha para SEMPRE

Certamente que o medo de ficar sozinha para sempre e ser comida por gatos não desapareceu. Continua a assombrar todas as mulheres, sobretudo as que vivem sozinhas. Mas acho que as mulheres do nosso tempo já perceberam que podem ser felizes sozinhas. Pessoalmente, acredito que faria bem a todas as mulheres (e homens) viverem durante pelo menos uns meses sozinhas, numa casa sua, com liberdade para serem quem forem. E por liberdade não entendo libertinagem, não entendo dar festas cheias de drogas e álcool, ou trazer todos os homens possíveis para casa. Entendo sim, poderem comer o que lhes apetecer, poder jantar meia caixa de gelado quando o dia corre mal, andar de pijama o dia todo, sentarem-se na varanda a ouvir a chuva e encontrarem os silêncios que existem dentro de nós. E depois de nos conhecermos bem a nós próprias, aí sim, estamos preparados para ter uma relação com outra pessoa. Para estarmos numa relação, construindo algo em conjunto, mas sem nunca deixarmos de ser nós próprias.

O Diário de Bridget Jones

Até ao próximo post,

Mafalda

7 Replies to “Diário de uma rapariga que vive sozinha”

  1. Foi por isso mesmo que um dia fui para longe durante um ano. Queria viver sozinha e assim o fiz. Tinha 52 anos e foi uma lição de vida. Estava longe e não tinha qualquer familiar nas redondezas……… Já tinha vivido sozinha aos 19 anos mas quando queria os meus pais estavam a 200Km……. Só ao fim de 5 meses voltei a Portugal para festejar os meus 53 anos……. Foi muito bom……

    1. Imagino que tenha sido uma grande experiência. E que tinha aprendido muito, sobretudo sobre si própria.
      Um beijinho professora.

  2. Raquel Nascimento says: Responder

    Adorei Mafalda! As diferenças geracionais são realmente muitas, gostei muito da análise.

    Continua! Beijinhos

    1. Muito obrigada Raquel
      Beijinhos, Mafalda

  3. Concordo, viver sozinha, nem que por um curto espaço de tempo, faz-nos muito bem, ficamos a conhecer-nos melhor 🙂

    Beijinho

    Lina Soares
    https://trintaporumalinhanoticias.blogspot.pt

    1. é isso mesmo. Aprendemos a fazer trinta por uma linha 😛
      Um beijinho, Mafalda

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