Diário de uma rapariga que vive sozinha

Não, não é o meu. É o famosíssimo diário de Bridget Jones. Bridget, uma londrina que vive sozinha, relata-nos de forma engraçada o seu dia-a-dia entre a liberdade de viver sozinha agora e o pânico de viver sozinha para sempre. Muitas vezes referido ao longo do livro é o mito da mulher que morre sozinha em casa e é comida pelos gatos.

O livro já tem muitos anos, mas encontrei-o por um euro e decidi lê-lo no Verão. Foi uma leitura leve e agradável. É um livro que se lê rápido. Embora não seja igual ao filme, é bastante parecido. Mas achei sobretudo interessante, ler um diário ficcional de uma mulher que como eu, vive sozinha.

O dilema carreira vs. família

Porém, acho que nos separa uma geração. Depois de ter passado os últimos anos da adolescência e os primeiros da vida adulta a ver filmes e séries de mulher que diziam não querer casar e ter filhos e em que me passavam pelos olhos tantos exemplos de mulheres que por opção ou pressão se dedicaram à carreira e que, ignorando os relógios biológicos, deixaram a família para depois ou optaram por nem a colocar nos seus planos.

Penso que depois de tanto vermos isto, de sermos avisadas dos perigos de casar cedo e do vazio que fica quando tudo o que existe é a carreira, sinto que somos uma geração diferente. Uma geração que quer ser bem sucedida e trabalha, mas que não abdica de ter uma vida para além do trabalho. Quer seja com a família, com os amigos ou a dedicar-se a um hobbie.

Já vemos a família de uma outra forma, não necessariamente como uma escravatura da mulher, mas como algo que queremos construir com o parceiro certo ao nosso lado.  Com o tema do balanço trabalho-vida familiar cada vez mais na berra, a família é cada vez menos uma antítese de carreira. A família e os filhos já não impedem de viajar, nem de viver e por isso cada vez menos se trata de uma escolha e cada vez mais é passível de se enquadrar nos planos de todos.

A pressão para ter um corpo perfeito

Outro tema muito abordado no livro é a pressão que existe para ter um corpo perfeito: Bridget começa quase todas as entradas no diário com uma pesagem e contagem de calorias ingeridas, seguidas de elevadas doses de auto-infligimento a cada deslize cometido. Com as marcas a aumentarem os tamanhos das roupas e  a crítica global à magreza das modelos, a questão está na procura de um estilo de vida saudável e fit. Claro que muita gente, continua a correr a cada nova promessa de “super-alimento” que surge. Pessoalmente, procuro um estilo de vida, que me permita sentir saudável, com energia e em equilíbrio.

O príncipe “desencantado” vs. o sapo encantador

Foto promocional do filme "O Diário de Bridget Jones" (Foto: Universal/Miramax)
Foto promocional do filme “O Diário de Bridget Jones” (Foto: Universal/Miramax)

Claro que estou a falar de Daniel Cleaver e Mark Darcy. Daniel é o suposto príncipe encantado que ao fim de uns quantos beijos se torna num sapo e Darcy é o sapo, que não se transformando necessariamente num príncipe, se torna encantador. Gosto de acreditar que o dilema Daniel-Mark, se põe cada vez menos. Entre Daniel, o homem de sonho que torna a vida num pesadelo e Mark, o homem facilmente desprezado mas que esconde um tesouro, as mulheres estão cada vez menos para aturar o ego do primeiro e cada vez mais prontas para assentar com o segundo (sublinho o gosto de acreditar). E não se enganem, também existem aí muitas princesas “desencantadas” e sapinhas encantadoras.

A questão é sobretudo perceber que príncipes encantados não existem. Existem pessoas. Existem homens e mulheres normais. Que têm pontos fortes e que têm defeitos, todos temos. Trata-se de uma escolha. Não é um príncipe  ou um sapo que nos sai na rifa. É alguém com quem escolhemos estar e que escolhe estar connosco. Escolhemos aturar os defeitos dessa pessoa. Escolhemos viver com os pontos fortes dessa pessoa. Escolhemos resolver os problemas que aparecerem. E escolhemos estar juntos e fazemos essa escolha todos os dias.

O pânico de viver sozinha para SEMPRE

Certamente que o medo de ficar sozinha para sempre e ser comida por gatos não desapareceu. Continua a assombrar todas as mulheres, sobretudo as que vivem sozinhas. Mas acho que as mulheres do nosso tempo já perceberam que podem ser felizes sozinhas. Pessoalmente, acredito que faria bem a todas as mulheres (e homens) viverem durante pelo menos uns meses sozinhas, numa casa sua, com liberdade para serem quem forem. E por liberdade não entendo libertinagem, não entendo dar festas cheias de drogas e álcool, ou trazer todos os homens possíveis para casa. Entendo sim, poderem comer o que lhes apetecer, poder jantar meia caixa de gelado quando o dia corre mal, andar de pijama o dia todo, sentarem-se na varanda a ouvir a chuva e encontrarem os silêncios que existem dentro de nós. E depois de nos conhecermos bem a nós próprias, aí sim, estamos preparados para ter uma relação com outra pessoa. Para estarmos numa relação, construindo algo em conjunto, mas sem nunca deixarmos de ser nós próprias.

O Diário de Bridget Jones

Até ao próximo post,

Mafalda

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7 comentários

  1. Foi por isso mesmo que um dia fui para longe durante um ano. Queria viver sozinha e assim o fiz. Tinha 52 anos e foi uma lição de vida. Estava longe e não tinha qualquer familiar nas redondezas……… Já tinha vivido sozinha aos 19 anos mas quando queria os meus pais estavam a 200Km……. Só ao fim de 5 meses voltei a Portugal para festejar os meus 53 anos……. Foi muito bom……

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