A psicologia da vitória de Trump

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Hoje estou de volta com um post diferente do habitual, vou-vos falar do tema mais quente da última semana: a vitória de Donald Trump. Foi na quarta-feira que ficámos a conhecer quem seria o próximo presidente dos Estados Unidos.

Eu estudo Psicologia Social e das Organizações e no último ano fiz um trabalho para uma unidade curricular sobre a campanha de Donald Trump. Era uma cadeira de influência social, sobre a maneira como as pessoas influenciam o comportamento umas das outras e tínhamos que fazer um trabalho sobre uma campanha. Escolhi logo trabalhar sobre uma campanha política e achei interessante pegar na campanha do Donald Trump, um personagem que se estava a candidatar à presidência.

Quando comecei a escrever o trabalho, ninguém acreditava que ele chegaria sequer a ser nomeado pelo partido Republicano. O meu trabalho termina no momento exacto em que se soube que Trump era o candidato presumível do Partido Republicano. 7 meses depois Trump será o próximo presidente dos Estados Unidos da América.

Quando fiz este trabalho, o meu interesse era perceber os processos psicológicos que estavam por trás do fenómeno Trump. Grande parte deles, mantiveram-se na segunda parte da corrida. Porém, uma das grandes mais valias era o facto de os dois serem nomes muito familiares dos americanos. Em psicologia, sabemos que quando algo nos é mais familiar, tendemos a avaliá-lo como mais positivo. Mas seria isso suficiente para fazer Trump ganhar? Até à nomeação do partido, apesar de existirem muitas outras estratégias, essa talvez tenha sido uma das razões que facilitaram a vitória de Trump.

Contudo, a concorrer contra uma Clinton, um nome não só conhecido, como altamente associado à presidência dos EUA, a fama do nome Trump não seria suficiente. Trump soube olhar para cada um dos seus públicos-alvos e comunicar com eles, falar com eles, dar-lhes o que queriam. Como bom marketeer, sabia que não podia agradar a todos, mas se agradasse consistentemente a alguns, esses iriam votar nele.

Nestas eleições, como no Brexit, colocou-se frente a frente a manutenção do status quo ou a apresentação de uma solução. Brincou-se com a frustração e os medos das pessoas. Fizeram-se campanhas populistas. Disseram-se coisas sem fundamento. Fizeram-se promessas extremistas e inconcretizáveis. Fez-se da política entretenimento e as pessoas consumiram-no.

Nós, os millenials, com o nosso facebook e com a nossa querida internet, achamos que o mundo está na rede a  que temos acesso. Da mesma forma, que as notícias que assistimos manipulam a forma como vemos o mundo. Aquilo que vemos nas redes sociais, também molda as nossas percepções. Não é grave que tivéssemos a ideia que Hillary ia ganhar (até porque ela ganhou o voto popular), mas é mau porque são realidades que desconhecemos e que por as desconhecermos assumimos que não existem.

Não sou contra a nossa geração. Acho que somos talvez a geração que tem mais contacto com um maior número de realidades. Estamos sempre ligados. Alguns realmente ficam a ainda mais fechados num mundo online. Mas quem quer consegue conhecer muito mais do mundo do que alguma vez foi possível. Mas não nos podemos iludir, o mundo é muito maior do que a internet, do que o facebook e sobretudo muito maior do que a informação que conseguimos captar. Pior, nós vamos sempre procurar informação que confirmem as nossas crenças, que fortaleçam o nosso mundo. A própria internet (facebook, google) começam a dar-nos conteúdos baseados naquilo que já vimos e corremos o risco de acharmo que estamos a ver o mundo todo, fechados numa caixa sem uma única janela.

Honestamente penso que esta vitória de Trump é má, mas não acredito que vá mudar o mundo. O Presidente dos EUA é uma figura, por trás dele há muita gente que realmente manda. Por trás dele, existe o senado e todos os outros órgãos cujos nomes desconheço e que aprovam ou não o que o Mr. President faz. Obama, com todas as suas boas ideias, deve ter levado cerca de metade avante. Não acredito que vá construir o muro. As propostas sobre os árabes já saíram do site da campanha. Acredito que expulse alguns imigrantes “para inglês ver”, mas não acredito que os expulse todos.

Acredito sim, que baixe os impostos para as empresas mais ricas, permitindo-lhes aumentar os lucros. Acredito que acabe com o Obama Care, refortalecendo o negócio da saúde. Acredito que crie impedimentos no comércio com a China, porque um mundo tão  globalizado não favorece a economia dos EUA. Acredito que aja relativamente à segunda emenda, para favorecer o negócio das armas. Também acredito que estas são os reais pontos da campanha. Os outros foram formas de atrair grandes massas de pessoas a votar nele.

Acredito que vai fazer um espectáculo, todos os dias se possível. Acredito que vai ser polémico. Até é provável que causa alguns incidentes diplomáticos. Mas não acredito que comece a terceira guerra mundial. Acho que vai ser uma época negra na história dos Estados Unidos, mas só porque mais uma vez os lobbys vão sair beneficiados, o racismo será mais aceite, a xenofobia tolerada. O mundo vai estar em tensão. Mas esperemos que isto não dure mais de 4 anos e que não existam danos a longo prazo.

Em baixo, têm a revista que fiz, sobre os processos de influência social na campanha de Donald Trump. Apesar de ser um trabalho da faculdade, a linguagem é super acessível e fiquei bastante orgulhosa do design também.

3 Replies to “A psicologia da vitória de Trump”

  1. A meu ver, o grande problema aqui não está na governação – porque, como dizes, de certeza que não terá apoio para todas as barbaridades que prometeu (embora neste momento todos os órgãos com poder nos EUA pertençam ao partido republicano, o que quer dizer que mexendo os cordelinhos certos, tem a faca e o queijo na mão, e isso é assustador…) – mas sim as portas que abriu ao ódio e à intolerância. Neste momento parece que todos os discursos de ódio são legítimos, e todos os racistas, xenófobos, homofóbicos e sei lá mais o quê decidiram perder a vergonha na cara e assumir abertamente as suas posições. Espero que não haja contágio mundial, mas temo que sim…

    Jiji

    1. Olá Joana! Muito bom o teu comentário! A minha discussão foi à parte disso! Mas com a propaganda do medo tudo o que são movimentos de direita e normalmente homofóficos/xenófobos/racistas, etc estão em altas por todo o mundo. Infelizmente esquecemo-nos depressa.
      Beijinhos, Mafalda

  2. […] antes tinha escrito no blog sobre o Trump, já fiz um trabalho sobre os processos de influencia social na campanha de Donald Trump e agora […]

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