De só a sozinha?

Tempo de leitura:4 minutos

Será que é possível uma pessoa, ainda por cima uma rapariga, gostar de estar sozinha? Será que não é muito melhor estarmos sempre acompanhados? Será que não aprendemos só a gostar de estar sozinhos quando inevitavelmente não temos ninguém com quem estar? É para responder a esta e a outras perguntas que decidi escrever este post.

Considero que, para a idade que tenho (24 anos), já tive uma boa experiência do que é a solidão e do que é estar sozinha. Entre mudanças de cursos, chatices familiares e com os amigos, já passei algumas temporadas mais sozinha que acompanhada. Já passei fins de semana inteiros sem falar com ninguém. E sei que no fim, por muito que custem, esses são momentos que nos fazem crescer incrivelmente.

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Foto de banco de imagem

Não é fácil, numa casa vazia confrontamo-nos com tudo o que somos e o que não somos. Numa casa vazia só existimos nós próprios: com os nossos defeitos e as nossas qualidades, não há outro com quem falar, outro que criticar, não há outro. Somos nós, no nosso melhor e no nosso pior. No início, custa encontrarmo-nos a sós, depois custa não termos este espaço só nosso.

A primeira vez que fiquei sozinha em casa tinha 15 anos. Durou pouco mais que uma semana.Tirando a parte da minha mãe estar doente até foi giro. Podia fazer o que quisesse: comer o que quisesse, deitar-me quando queria, ver televisão, trabalhar nas horas que quisesse. No geral, a coisa correu bem, excepto o dia em que não ouvi o despertador e cheguei atrasada às aulas a soluçar e lavada em lágrimas. Estava desgastada ao fim de uma semana de visitas ao hospital, responsável pela gestão da casa e a tentar manter o trabalho diário de uma aluna do 10º ano num dos melhores colégios do país (na altura era uma louca que punha a escola à frente de tudo, que se matava a trabalhar e que mesmo nas piores circunstâncias não aceitava dar nada menos que tudo).

Seguiu-se uma nova operação da minha mãe. Tinha 16 anos, estava no 11º ano. Voltei a ficar sozinha. Era para serem duas semanas. Mas as semanas foram passando e transformaram-se em meses. Apesar de ter vivido com uma familiar durante cerca de um ano, foi nesta altura que comecei a perceber o verdadeiro significado de estar sozinha. Desta vez, foi diferente. Foi também a altura em que se tornou claro que a minha mãe ia morrer. Se nas primeiras semanas estar em casa sozinha me angustiava: ficava sentada no chão a contemplar as paredes ou o chão, sem saber muito bem o que fazer ou o que pensar. Com o tempo, comecei a precisar daquele silêncio, daquele espaço para estar angustiada, daquele espaço onde podia estar triste sem me sentir fraca, daquele espaço onde ninguém me via, onde ninguém me esticava a mão, mas também ninguém me apontava o dedo.

Qual é a piada de fazer uma árvore de Natal sozinha?
Qual é a piada de fazer uma árvore de Natal sozinha?

O tempo foi-se passando e passei a viver sozinha. Por definição, quando se vive sozinha, a maior parte do tempo a pessoa está sozinha. E novamente isto não foi simples. Todos os dias chegar a casa ao mesmo silêncio, à mesma casa vazia, sem ninguém à nossa espera para ouvir as nossas histórias e partilhar uma refeição é uma experiência extremamente fortes. É a situação dura e crua à nossa frente. Naquele momento, era confrontada uma e outra vez com o facto de que os meus pais tinham morrido e que aquela solidão não ia embora.

A partir do momento em que comecei a viver sozinha, aos 18 anos, estar sozinha passou a ser uma constante na minha vida. Quando ficava doente, só sobrava eu para tomar conta de mim. Ninguém me trazia uma sopinha, nem sequer os medicamentos, ou um miminho. Era mesmo eu, cheia de febre, a vomitar, o que fosse, a arrastar-me pela casa, a preparar comida para mim, a ir à farmácia se fosse preciso.

Um momento que me lembro bem foi no primeiro ano da faculdade. Foi um ano em que me encontrei especialmente sozinha. Foi também o ano em que aprendi a estar bem com isso. Mas, nesse ano lembro-me particularmente de um fim de semana grande, penso que foi o da Páscoa, em que passei o fim de semana todo sem ver ninguém (de quinta a segunda). Estive em casa, eventualmente fui ao supermercado ou à farmácia, mas passei 4 ou 5 dias sem ter uma conversa com alguém, sem tocar noutro ser humano, sem ouvir outra voz, sem ouvir a minha própria voz. Nessa altura, quando voltava “ao mundo” era quase estranho voltar a falar, parecia que a voz me faltava, que já não sabia falar.

Entretanto aprendi que quando estamos sozinhos não tem que ser horrível, que pode ser um momento tranquilo e até mesmo bom ou muito bom. Um momento em que podemos encher a banheira, por uma música e relaxar. Em que podemos fazer jantares espectaculares só para nós próprias. Em que podemos fazer uma festa, dançar e cantar sem mais ninguém. Em que podemos fazer maratonas de séries (mesmo das que não queremos admitir que fizemos, Gossip Girl cof cof). Podemos ir passear. Podemos ganhar novos hobbies (como o bodyboard), podemos ganhar novos amigos (como a minha gata), podemos partir sempre que quisermos (foi assim que já conheci tantos países).

O tipo de coisas que eu faço quando estou sozinha em casa ;)
O tipo de coisas que eu faço quando estou sozinha em casa 😉

Hoje em dia, estou numa fase diferente, apesar de viver sozinha, tenho o meu namorado, os meus padrinhos, as minhas amigas, o bodyboard, a gata. É raro conseguir estar verdadeiramente sozinha. E só quando passei a ter tantas pessoas que me amam à minha volta é que percebi o bom que é estar sozinha. Não que não queira estar com eles (e isto é verdadeiramente difícil de explicar), mas porque às vezes um dia sozinha, sem nada para fazer, significa que tenho a chance de voltar a estar tête-à-tête comigo própria, de ver as escolhas que tenho feito, de encontrar novos caminhos, de ouvir o meu coração, de ver as dores da minha alma. E de tratar de mim, umas vezes com uma cama quentinha, outras com um banho e um copo de vinho, outras ainda a escrever nos meus cadernos tudo o que me vai na alma.

Algo que me custou tanto é agora o meu refúgio. Uma fraqueza que se transformou numa mais valia. Uma coisa que não queria e sem a qual já não sei viver.

 

3 Replies to “De só a sozinha?”

  1. tens uma força inacreditável! Já te disse isto e volto a dizer: és uma rapariga 5*. E o facto de teres passado por tanto, é que te tornou a pessoa que és hoje.
    Ver a tua evolução ao longo de 5 anos é extraordinário.
    E a força que tens em falar das coisas (algo que era quase impossível na altura) só demonstra o quanto cresceste e o quanto te tornaste uma mulher adulta…tenho orgulho em ti!
    Continua assim.

    1. Muito muito obrigada. Crescemos muito as duas nos últimos anos. Gosto muito também da nova/velha Nathalie. Um beijinho grande 😉

  2. […] fase, aprendi a estar bem comigo própria (mais aqui) e aprendi outras competências. Voltei a ser uma estudante. Voltei a ganhar o gosto por aprender e […]

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