A perspectiva de Trump no Web Summit

brad parscale no web summit
Tempo de leitura:4 minutos

Hoje escrevo sobre os elementos da campanha do Trump no Web Summit.

Ao segundo dia do web summit fiquei fascinada com os elementos da campanha do Trump. Fui a várias conferências (ao fim de cada dia fico chocada com o reduzido número de conferências às quais consigo efetivamente ir) . Mas as que mais me marcaram andaram todas em torno do mesmo tema Trump, as eleições, a política e a verdade:

  • The Trump Effect, one year on

Esta é a única que encontrei online, mas acho que exemplifica bem o lado da campanha Trump. Tentem ver e não sentirem, pelo menos um pouco, que o tipo até tem alguma razão, ainda que continuem a não concordar.

  • Making a President: Inside Trump’s election and presidency
  • Reporting the Truth in Chaos – CNN

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  • The Fate of Facts – Washington Post

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Uma das coisas mais interessantes neste tipo de eventos para mim é a oportunidade de ouvir perspectivas diferentes. Hoje pude ficar a conhecer a perspectiva do Trump e talvez perceber um pouco melhor as pessoas que votam nele. Continuo a não concordar com ele, mas isso não significa que não possa tentar compreender o outro lado.

Das coisas mais estúpidas que podemos fazer quando não concordamos com um ponto de vista é limitarmo-nos a dizer que ele é idiota. Num mundo, de bolhas se queremos mudar alguma coisa temos que perceber como é estar nessa bolha, antes de tentarmos mudar o que quer que seja. Para além disso, acho que podemos também aprender com as estratégiasque eles usam, quer para as usarmos mais eticamente, quer para sabermos como nos podemos defender.

Já antes tinha escrito no blog sobre o Trump, já fiz um trabalho sobre os processos de influencia social na campanha de Donald Trump e agora conhecer as pessoas que fazem parte da campanha dele foi, para ser honesta, incrível. O mais surpreendente é que não os detestei e acabei por reconhecer o seu mérito. São uns idiotas, mas têm mérito no que fazem. O director digital dele parece genuinamente acreditar que está a fazer algo correto, de tal forma que quase me fazia acreditar a mim também. Fiquei chocada sinceramente. Já tinha estudado os processos, analisado vídeos de congressos e lido tweets, para alem de acompanhar as notícias, mas realmente  ouvir o senhor a falar é outra coisa. Fez-me pensar tanto. 

Apenas algumas horas depois de a editora-chefe da CNN digital falar sobre como é importante criar conteúdos de qualidade, Brad Parscale disse que “não precisa de ter a visão da CNN”.

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Brad Parscale é o Director Digital da campanha do Trump. Por muito que considere que a sua visão do mundo está extremamente enviesada, não pude deixar de ficar fascinada com todas as técnicas de persuasão que ele usa ao mesmo tempo, de uma forma que parece quase natural (ao ponto de que no fim não posso dizer com certeza que não seja).

Uma linguagem simples e clara e com vários sound bites (frases curtas, simples e marcantes que ficam na memória). Apela frequentemente à família (um valor tão importante e ao mesmo tempo tão conservador para um presidente que teve 3 mulheres) e justificar as políticas de Trump com frases do tipo “quando votamos, o que realmente queremos é o melhor para nós e para a nossa família”, ele não só apela ao egoísmo de querermos o melhor para nós, mas quem é que consegue dizer que não quer o melhor para a sua família. A estrutura do discurso exemplar “se isto, então aquilo”, mesmo que seja completamente baseado em mentiras ou ideias falaciosas, não interessa, quem o ouve mesmo que não queira fica convencido. A segurança, a crença, a resposta pronta. Devo dizer que também admirei a capacidade de encaixe, não é toda a gente (incluindo o Mr. Trump) que aceita estar a falar num sítio onde vai ser constantemente apupado e ainda assim consegue manter calmamente o seu discurso e defender as suas ideias sem hesitar. Incrível.

Por fim, uma última reflexão para a inteligência daquele tipo. Tomara muitos directores de marketing (de campanhas políticas ou de empresas) e muitos estrategas digitais conseguirem pegar num produto no qual ninguém acredita e transformá-lo com num vencedor histórico. É verdade que o senhor gastou muito dinheiro, mas se podemos aprender algo com ele (na verdade, acho que podemos aprender muito) é a maneira como utilizou os dados para gerir a campanha. Ele não só testou imensos anúncios, como analisou e interpretou os dados de forma a ajustar o rumo não só da estratégia digital, mas da própria campanha. É claro, que ele não é nada estúpido, sabe o que está a fazer e é indiscutível que é muito bom no que faz.

A verdade é que a mesma estratégia pode ser usada para fazer o bem e o mal (lembro-me desse aviso no início das aulas de atitudes e persuasão que tive na faculdade). Muitas vezes, quando a informação está a ser manipulada são usadas estratégias de persuasão para a tornar mais simples, mais clara e mais convincente. Nós, as pessoas informadas, adoramos combater os sound bites fixes com notícias e artigos de opinião complexos que ninguém, a não ser quem já pensa dessa forma, percebe. Às vezes acho que temos que sair da nossa zona de conforto e arriscar comunicar de uma maneira mais eficiente ainda que nos pareça desconfortável.

E vocês o que acham desta personagem? Acham bem que os elementos da campanha de Donald Trump no Web Summit?

One Reply to “A perspectiva de Trump no Web Summit”

  1. Optima análise psicológica e científica de processos de influência. De fato, o Trump não é parvo – tem um enorme máquina de marketing e de estratégia MUITO BEM DESENVOLVIDA que lhe permitiu chegar aonde chegou. No fundo, ele é (ou foi) um homem de negócios e tratou a sua campanha como um negócio – com um plano, objetivos e estratégia. E quanto a isso temos de lhe tirar o chapeu! Deve ter sido uma optima experiencia ver essa conferencia 🙂

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