Um 2017, com uma “crise de quarto de idade”

Tempo de leitura:3 minutos
Quando o fim do ano chega, para mim é sempre altura de fazer um balanço do ano que passou e começar a planear o próximo que virá. Este ano não foi particularmente positivo, nem particularmente negativo. Na realidade, foi um ano duro. Não aconteceu nenhuma catástrofe e não aconteceu nada de espectacular. Com tantos anos verdadeiramente horríveis que já tive, quase que me sinto mal a dizer que este foi um ano mau. Quando o fim do ano se começou a aproximar ainda pensei: “2016 foi um ano excelente, se calhar este só não foi melhor que 2016, mas até foi bom!”. Mas depois de ter passado a maior parte dos meses entre estados depressivos e/ou ansiosos, acho mesmo que interiormente foi uma ano um pouco complicado.
Chega a um ponto em que é difícil querer avançar com a vida, e sentir que estamos presos numa crise de quarto de idade ou crise dos 25 anos, ou o que lhe queiram chamar. Vemo-nos perante uma escolha: os sonhos ou um pouco mais de estabilidade (ainda que pouca). Levamos com mais desilusões do que alegrias. E temos bastante dificuldade em perceber o que vem a seguir. E é um fenómeno que se espalha por aí. Encontro-o em quase todos os meus amigos que acabaram o curso nestes últimos tempos (dias, meses, até anos). São poucos os que já têm uma vida orientada e feliz. Também não era isso que se esperava aos 25 anos. Mas esperava-se que estivessem a aprender e a avançar com as suas carreiras e com as suas vidas, a ganhar a autonomia, a começar a pensar sair de casa ou ir viver com os namorados. A maior parte estão semi-parados no tempo, à espera. À espera dos empregos: os de sonho, ou os que lhes dêem oportunidade de fazer uma vida fora da casa dos pais, mas eles raramente aparecem. À espera que os preços das casas baixem porque já começa a estar na hora de sair de casa, mas a ganhar quase o ordenado mínimo não há como. À espera que a economia dê a volta, dizem que já deu, mas não se nota, parece que fica tudo cada vez mais caro, mas nós temos sempre o mesmo dinheiro.
E tudo isto faz parte, faz parte. Para mim significou dar um passo que pareceu um passo atrás. Ir para um mestrado, porque sabia que ainda não era a altura de ir para o doutoramento, porque queria fazer algo diferente e que me apaixonasse e porque podia fazê-lo. Os últimos tempos encheram-se de comentários condescendentes e alguns olhares reprovadores. Às vezes é o coração que tem que se seguir, mas com muita cabeça e sabendo onde se quer chegar. Ainda assim custa. Custa ver a falta de perspectivas, custa ver que parece que independentemente do trabalho, dedicação e esforço que ponha em algo, nada acontece. Custa não saber o que vem a seguir e perceber que provavelmente nunca vou saber. Que a estabilidade está esgotada, não se sabe quando vai voltar a ser produzida e por isso somos nós que temos que manter a nossa estabilidade, sobretudo emocional.
E às vezes é duro e vem tudo de uma vez. Parece que nada avança, parece que nada corre bem, parece que o plano falhou e não sabemos o que fazer a seguir. Noutros dias, há mais ânimo, crença nos nossos sonhos e forças para lutar por eles. E entre uns dias e outros vamos crescendo, vamos fazendo o que achamos certo e esperando que se correr mal, pelo menos dê para aprender alguma coisa. Vamos esperando que tantos passos no escuro, nos levem ao lugar certo. E depois há a confiança. A confiança em nós, a confiança nos outros e a confiança que esse lugar existe.

Sharing is caring!

3 Replies to “Um 2017, com uma “crise de quarto de idade””

  1. Percebo perfeitamente do que falas. Seguir os sonhos ou arranjar qualquer coisa para ter a vida feita? Acho que temos de encontrar um equilibrio mas não esquecer que se não seguirmos os nossos sonhos, não seremos felizes! Beijinhos e bom ano!!

  2. Percebo o que queres dizer e estou numa situação semelhante, a fazer um segundo mestrado e muito dividida quanto ao que fazer a seguir (algo mais seguro mas que me entusiasma pouco ou arriscar por algo menos seguro de que gosto muito mais?). Enfim, vamos decidindo passo a passo e esperando estar no caminho certo, ou ter sempre a possibilidade de voltar a escolher e seguir um caminho diferente… Bom ano 🙂

    1. Olá Inês. Pois acho que a decisão se vai fazendo mesmo um passo de cada vez, com pequenas decisões que vamos tomando e também com o que a vida nos vai apresentando. Um bom ano e boa sorte nesta caminhada 😉

Deixe uma resposta