Christmas blues ou quando o natal não é sinónimo de alegria

Christmas blues - fazer a árvore de natal sozinha

Há o blues pós-parto e para mim há o christmas blues. Sim, é um nome fancy, mas já que resulta em tristeza, deixem-me ter a alegria de lhe poder dar um nome fancy. Sei que não sou a única no mundo, infelizmente. Por isso decidi fazer um post para vos falar mais desta experiência (nada positiva) que tenho ano após ano por volta de Novembro e Dezembro.

NOTA: Este artigo não tem qualquer tipo de base científica. Não sei se existe realmente alguma coisa chamada Christmas Blues (à parte do anúncio da lotaria espanhola que encontrei quando estava a fazer o post).

SEGUNDA NOTA: afinal existem mesmo alguns artigos sobre isto, alguns até parecem mais ou menos credível (deixo-vos este do WebMD, algo mais credível que podem consultar se estiverem interessados no tema)

Mas afinal o que é isso de Christmas blues?

Christmas blues ou depressão natalícia é uma tristeza que bate forte cá dentro por volta de Novembro/Dezembro. Tende a ser despoletada cerca de um mês antes do Natal, quando as ruas se enchem de luzes e as televisões de famílias sorridentes e felizes. Afecta pessoas que vivem sozinhas (check), que têm situações familiares complicadas (check) ou que perderam recentemente (ou não) pessoas importantes (triple check). Entretanto, andei a fazer algumas pesquisas e descobri que também pode estar associado à excessiva comercialização do natal, expetativas irrealistas, problemas financeiros e o stress de organizar eventos natalícios e comprar os melhores presentes.

Vários destes factores associados a ansiedade e cansaço podem gerar uma mistura explosiva que pode resultar em sentirmo-nos ainda piores do que quando estávamos só cansados e stressados. O ponto positivo é que uns dias depois da passagem de ano, já passou.

Apesar das muitas causas do Christmas blues, vou-me focar naquela que me assola. O blues provocado pelo facto de viver sozinha e de não ter os meus pais comigo.

O que me custa é a antecipação

Não é deste ano, nem de há cinco, nem de há dez que me sinto triste na altura do Natal. Foi tendo formas diferentes de se manifestar ao longo do tempo, mas conto pelos dedos das mãos os natais em que não me senti triste. Para ser honesta, atualmente, o dia de Natal é o que me custa menos porque costumo estar com os meus padrinhos, estamos em festa, há doces, comida boa e presentes.

O que me custa é o mês e meio em que somos invadidos pelo espírito natalício. O que me custa é a antecipação. São os quase dois meses de anúncios de Natal, de felicidade natalícia. É fazer a árvore. É a antecipação até receber um convite para passar o Natal com alguém. É os filmes de Natal. É a compra dos presentes de Natal (para a qual não tenho dinheiro). É todo este “vamos estar felizes” quando a mim só me apetece chorar.

 

Os meus natais

Eu em criança, a adorar o natal
Eu em criança, a adorar o natal

Depois do meu pai morrer, quando eu tinha 10 anos, o Natal não voltou a ser igual. Sobretudo no dia de Natal (porque a noite costumava passar com a minha mãe) sentia que faltava qualquer coisa. Nessa altura, deixei de festejar o Natal com a família do meu pai e fui acolhido nos festejos do dia de Natal da família da minha mãe. Não era que não gostasse de estar com eles, mas sentia que o meu lugar não era ali e que faltava qualquer coisa ao meu natal.

Alguns anos depois, começaram os natais em que a minha mãe estava doente (foram 3). No último, com o prenúncio de uma operação que estava para vir em Janeiro e uma situação que se estava a agravar. Eram tristes. Ainda que tentássemos estar felizes, não era igual. A minha mãe não conseguia sorrir da mesma maneira (porque tinha metade da boca paralisada). Ficava cansada rápido, não podia mexer muito a cabeça. Para ajudar há situação, ao longo dos 7 natais que passei só com a minha mãe, houve pelo menos dois ou três que fiquei doente (com vómitos o dia todo) e sem poder sair de casa.

Quando passei a não gostar do Natal

E depois a minha mãe morreu. Antes disso, eu gostava do Natal. Embora me causasse ansiedade e às vezes as coisas não correspondessem às minhas expectativas eu adorava o Natal. Adorava as músicas. Adorava a comida. Adorava as luzes e as decorações. Ir comprar presentes. Era uma época mágica do ano.

Depois, Natal passou a ser sinónimo de falta, de solidão. Mesmo no meio da família da madrinha (são mesmo muitas pessoas), há sempre momentos em que me sinto sozinha, deslocada, triste. Não consigo evitar. Por muito simpáticas e queridas que as pessoas sejam nesta época, esta é a época do ano que me recorda que estou sozinha. Que me diz, em letras garrafais, que os meus pais morreram. Não há forma de escapar, o Natal é a época da família e eu já não posso celebrar com a minha.

O antes, o durante e o depois

O antes

Ok! Tenho que confessar, continuo a adorar as luzes e os mercados de Natal. Mas ainda assim, lembram-me sempre que é Natal
Ok! Tenho que confessar, continuo a adorar as luzes e os mercados de Natal. Mas ainda assim, lembram-me sempre que é Natal

É horrível. Não há escapatória possível. É o Natal. É a festa da família por excelência. E começa a ser antecipado quase desde o Verão. Estou a brincar. Mas estamos a 15 de Novembro e as campanhas de Natal já estão a sair desde a semana passada. Tal como o dia do pai ou o dia da mãe, aqueles anúncios só me lembram das pessoas que não tenho na minha vida. Magoam-me. Deixam-me triste. É um mês e meio a lembrar-me todos os dias, a toda a hora, que os meus pais morreram. É insuportável.

A juntar à festa, esta é por execelência uma altura do ano com imenso trabalho e stress (seja na faculdade ou no trabalho). É altura de estudar para os exames ou de entregar trabalhos. Numa empresa é a época de fecho de contas e preparar o ano seguinte. O que é que eu quero dizer com isto? Esta é uma altura em que normalmente me encontro especialmente cansada e stressada. O que aliás tem acontecido nas últimas semanas. Como se isso não bastasse, estou eu cheia de sono e com dores no corpo e cai-me a m***** do Natal em cima. Não é justo. Não é agradável. Não gosto.

É demasiado duma vez. É extremamente cansativo. É desgastante.

O durante

Christmas blues no dia de natal

Isto é, a véspera e o dia de Natal. Normalmente, umas semanas antes sou convidada pelos meus padrinhos e mais alguns amigos para passar o Natal com eles. Houve um ou dois anos em que não quis participar porque honestamente não tinha cabeça para tal. Foram os primeiros anos depois de começar a viver sozinha e preferia estar na minha. Houve um ano que fiz massa para o Natal porque me apeteceu. Não foi triste, nem deprimente. Quer dizer, foi. Mas foi melhor do que seria se eu fosse obrigada a estar numa mesa cheia de pessoas a sorrir para elas e a fazer de conta que estava feliz.

Num dia feliz como o Natal, ninguém quer uma pessoa triste, a lembrar-lhes que a vida não corre ás mil maravilhas. Nunca optei por viajar. Quando estava em erasmus voltei para o Natal. Acabei por me adaptar à tradição e a aceitar que não vou ser a pessoa mais feliz da festa como quando tinha 10 anos. A verdade é que prefiro passar estes dias com outras pessoas que sejam importantes para mim, neste caso os meus padrinhos. Por muito que não sinta uma profunda felicidade, sinto-me menos triste e nestes dias isso já é muito bom.

O depois

Há ali uns dias até chegar ao ano novo em que ainda meio abatida. Normalmente reclamo dos presentes (Miguel desculpa) e dos quilos a mais. Não consigo voltar a não ficar abatida cada vez que mais uma pessoa me conta como foi o seu Natal com toda a família, a festa, os presentes, a alegria. São pequenas facadinhas que doem, mas não deixo de querer saber como foi o Natal dos meus amigos mais próximos.

Depois a meio de Janeiro, acaba por passar. Vai-se diluindo. Até chegar Fevereiro (quando o meu pai morreu) e Março (dia do pai), mas pronto pelo menos durante um mês ou dois ando com uma cara mais alegre. E pareço menos um bicho do mato.

Como dar a volta à situação

Não é fácil e como o post já está longo, vou ser breve neste ponto (talvez faça outro post com isto). Se abriram o link do WebMD viram que estão lá 25 dicas para lidar com o Christmas blue. Eu vou partilhar convosco as minhas, que tenho que confessar não são necessariamente super eficientes.

Depois de perder alguém muito importante para nós, no meu caso os pais, é importante criar novas tradições. Até aos meus 16 anos, eu ia para o quarto, enquanto a minha mãe colocava os presentes na sala e punha uma máscara de pai natal. É uma parvoíce, mas eu adorava isto. No entanto, isso já não vai acontecer. E mesmo que alguém faça isso agora, não vai ser igual. Portanto, é importante criar novas tradições ou pura e simplesmente fazer coisas diferentes.

Nos dias antes, tento rodear-me de pessoas importantes para mim. É um bom momento para marcar jantares de amigos. Costumo participar nos jantares de Natal que vão acontecendo. Este ano combinei fazer a árvore de Natal com o meu namorado. Não vou deixar de me sentir extremamente só, mas sempre me sinto acompanhada na minha solidão.

Para as pessoas que estão a minha volta, pode ser extremamente frustrante que independentemente do que elas façam eu não me sinta mais feliz ou animada e continue a dizer que estou deprimida e que me sinto sozinha. Primeiro, é importante dizer que eu só digo isso a pessoas com quem tenho uma relação íntima (amigos próximos, namorado, etc). Segundo, não é o vosso chocolate ou a vossa companhia que vai colmatar a falta dos meus pais e não é suposto que o faça. Fico feliz quando as pessoas fazem essas coisas, mas o meu nível de felicidade máximo por esta altura é estar só triste e não altamente deprimida. Por último, se essas pessoas se sentem frustradas, imaginem como é que eu me sinto, naquela que era a minha época do ano preferida, a viver triste e abatida, como se fosse o homem avarento do Christmas Carol.

8 Replies to “Christmas blues ou quando o natal não é sinónimo de alegria”

  1. Como te compreendo. Em 2008 optei por passar o Natal sozinha…….. Hoje é quase um dia como os outros……… no ano passado fui caminhar à beira mar com o Paulo e fomos jantar fora os dois……..

    1. Parece-me uma óptima forma de passar uma noite agradável

  2. Mafalda, sinto as dificuldades que tens enfrentado em cada palavra tua. E não falo de dificuldades financeiras, mas sim de desafios sentimentais. És um exemplo de força, mesmo que te aches com muitas fraquezas. Aprendeste a dar a volta numa estrada em que quase não havia espaço para inversão de marcha. Aprendeste a sorrir mesmo quando as lágrimas teimam em querer sair dos olhos. E és uma mulher coragem por tudo isto mas, acima de tudo, por continuares a caminhar mesmo quando o caminho se apresenta árduo e repleto de obstáculos. És uma inspiração. E um exemplo para todos aqueles que, por vezes, não se sentem felizes mesmo tendo todas as razões do mundo para agradecer tudo aquilo que a vida lhes dá.

    Um beijinho repleto de força.
    Vamos mantendo o contacto 🙂

    1. Olá Bárbara! Mais uma vez obrigada pelas tuas palavras. Beijinhos, Mafalda

  3. Realmente, o Natal traz muitas vezes um misto de sentimentos… e que grande força que tens, Mafalda! Gostei muito de ler este post 🙂

    1. Obrigada Catarina! Beijinhos

  4. […] que não queira fazer. Apesar da tristeza que me invade nesta época (vejam este outro post aqui), na realidade, na antecipação desta época. A pouco e pouco fui voltando a encontrar a magia do […]

  5. JOSÉ ALDYR GONÇALVES says: Responder

    Mafalda, sei profundamente o que sentes, pois sinto tal qual.
    Ironicamente, a duas décadas,passei a morar numa Cidade aqui no Brasil cujo nome é NATAL. Mas ainda bem que nem todos os dias do ano são “blues”, e posso refugiar-me de bom humor.
    Grande abraço.
    Aldyr

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